sábado, 14 de fevereiro de 2009

Das verdades absolutas e inatacáveis.


O Brasil em choque recebeu dias atrás a notícia de que uma advogada brasileira grávida de gêmeos havia sido atacada por neonazistas em Zurique, Suiça. Além de incontáveis marcas em seu corpo o ataque também teria deixado como seqüela a perda da gestação.

É natural que situações assim despertem comoção afinal uma violência dessa ordem contra uma mulher ainda por cima grávida... Pois é, a verdade parece não ser bem a que se imaginava. A verdade parece não ser aquela que nossos olhos viram nos noticiários. Talvez seja por isso que se diga que a justiça é (ou ao menos deveria ser) cega. Nem sempre o que se ve é a expressão da verdade.

Conclusivamente já se pode afirmar que não havia gestação em curso. A polícia local chama a atenção para o fato de que todos os ferimentos foram em partes do corpo que poderiam ter sido feitos pela própria (agora “suposta”) vítima. Mais: não existem ferimentos em seios e genitália, algo recorrente em casos como esse.

Da comunidade brasileira local à diplomacia brasileira, inclusive nosso presidente (ele não perderia uma chance dessas...), não faltaram manifestações de repúdio “ao covarde ataque”.

Não faltaram também os “patri(di)otas” de plantão com a velha argumentação de sempre: “ah...se é aqui no Brasil...” e tome aquela ladainha de complexo de inferioridade que aflora em situações assim.

É como se uma ocorrência de violência num país dito desenvolvido nos absolvesse de nossa responsabilidade pela guerra civil que vivemos nas cidades brasileiras. Seria mais ou menos uma linha de raciocínio que se basearia na lógica do “se eles podem que são ricos imagina só a gente que é tão pobrezinho”.

As conclusões foram as mais diversas. Seja no impacto da crise econômica no latente sentimento xenófobo que assombra a Europa, passando pela suposta má vontade da polícia com a pobre imigrante, ou mesmo um retrocesso na histórica imagem de neutralidade e desenvolvimento social da Suíça.

O fato é que parece que estamos diante de uma tragédia pessoal, restrita ao seu universo familiar.

Mesmo que o episódio venha a se confirmar como sendo algo próximo da primeira versão (algo cada vez menos provável), fica a lição que sempre deve haver uma saudável dúvida sobre toda situação antes de se fazer qualquer julgamento.

Mais uma vez a vida nos mostra que todo julgamento feito no calor da emoção tende invariavelmente ao equívoco.

Fazer um julgamento rápido, encontrar uma solução imediata é um erro comum na história do homem. Acredito que cada um de nós deve ter em seu microcosmo ao menos uma dúzia de exemplos daquilo que parecia ser, mas que não era.

Que se preparem todos aqueles que atacaram de forma generalizada os europeus e os suíços em especial por seu “preconceito” (como se essa generalização não fosse o maior dos preconceitos); que se prepare a diplomacia brasileira para contornar suas precipitadas declarações e atitudes e acima de tudo que nos preparemos todos, para tristes, testemunharmos por mais uma vez o quanto somos de fato subdesenvolvidos, ao menos em nossa capacidade de julgar.

Que esse triste episódio não nos permita esquecer o quanto é importante lembrar que uma situação sempre tem dois lados, que o contraditório é o único caminho possível para a justiça.

O óbvio é o mais perigoso dos caminhos.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Bon Bini Aruba!


Amo viajar e aproveitei uns dias de férias para pegar mais um carimbo em meu passaporte. Nosso destino dessa vez foi uma ilha muito simpática no Caribe: Aruba.

Antigo território das Antilhas Holandesas, próxima da costa venezuelana, hoje Aruba é um território independente e membro do Reino da Holanda. Em outras palavras, Aruba está para o Reino da Holanda assim como o País de Gales está para a Grã-Bretanha.

O regime de governo é parlamentarista com um Primeiro-Ministro fruto da coalizão do Parlamento com seus 21 representantes. Aruba também tem um Governador que é o representante da Rainha da Holanda. A defesa do território arubiano fica a cargo das forças de defesa do reino holandês.

Oficialmente a língua de Aruba é o holandês, mas a língua do povo, a que se fala nas ruas é o Papiamento. Resultado da fusão do português, espanhol, holandês e inglês, o papiamento é uma língua linda de fantástica sonoridade. Existem muitos termos em português como bom dia, boa tarde e boa noite, mas não vá se animando: é impossível entender a língua. Uma curiosidade, o papiamento é a língua usada no Parque Hopi Hari. Aliás, basta prestar atenção no nome da língua para fazer uma associação direta: papiamento significa conversação. (veja no fim do texto o resultado da pesquisa no Wikkipédia)

Para quem vive numa cidade do tamanho de São Paulo é estranho pensar num país de extensão territorial tão mínima, divido em três distritos: Oranjested, capital com jeito de centro de cidade, Palm Beach zona de maior concentração de resorts e San Nicholas, onde fica a refinaria de Petróleo responsável ( junto com o turismo) por quase toda atividade econômica da ilha.

A população de Aruba é de aproximadamente 115.000 habitantes sendo 100.000 deles nativos. Números extra-oficiais apontam para um número entre 5.000 e 8.000 ilegais, muitos brasileiros.

Optei por Aruba entre outros motivos pelo preço. Quando fechei o pacote em setembro os preços (com o dólar ainda em paridade favorável) eram mais atrativos que passar o mesmo tempo num bom resort no nordeste. Não hesitei, só de não ter que ouvir axé, já estava valendo, podendo conhecer uma nova cultura, uma nova língua e outro povo, nem tinha o que pensar. Mas havia uma pedra no caminho.

Com a alta do dólar o custo de se manter lá esses dias tirou a vantagem financeira da viagem uma vez que não se faz uma modesta refeição por menos de US$ 30,00 por pessoa, que multiplicado por quatro... fez doer meu bolso. Ainda assim valeu a experiência.

Apesar de estarmos em temporada Aruba não estava lotada, ao contrário parecia até mesmo vazia. Aqui e acolá eram comuns os comentários sobre a crise global que atingiu em cheio o principal turista que visita Aruba: o americano. Outrora gastadores compulsivos, os americanos hesitam em gastar um mínimo dólar e fazem valer a expressão “all inclusive” aproveitando ao máximo os serviços dos hotéis. Aliás, para quem bebe uma dica, você pode beber a noite inteira de graça desde que esteja disposto a arriscar alguns dólares num mesa de poker num dos inúmeros cassinos de Aruba. Se for comedido a conta é capaz até de fechar e quem sabe com um pouco de sorte... Se não for o caso fica valendo pela brincadeira.

No quesito compras, apesar de alguns bons preços já que Aruba é “duty free” não existem muitas variedades, algumas lojas de marcas mais famosas, alguma coisa de eletrônicos, mas nada demais.

Em suma, você pode até fazer algumas boas compras e refeições em Aruba, mas lá é um lugar mesmo para curtir mar e praia onde a palavra de ordem é relaxar.

Para quem quiser gastar uns US$ 100,00 por triciclo (leva até duas pessoas) sugiro o passeio de três horas que passa pelos principais pontos naturais de Aruba, você vai curtir, ainda mais se como eu tiver excelentes companheiros de viagem.

Meus agradecimentos ao Caio e ao Kike, vocês dão sentido a minha vida e fizeram dessa viagem uma experiência ainda melhor. Ah... uma última dica...essa do Caio: se você está pensando em balada Aruba não parece ser o melhor dos destinos.

Nota:
A rota para Aruba foi via Colômbia, com conexão em Bogotá. As inúmeras barreiras no aeroporto de Bogotá nos lembram que a Colômbia ainda é, mesmo com o enfraquecimento das Farc, um país em guerra civil.

Papiamento

É uma língua crioula e é a principal língua falada nas ilhas caribenhas de Aruba, Curaçao e Bonaire.

O papiamento originou-se do pidgin português conhecido como Guene, por ser falado pelos escravos africanos (originários das zonas de Guiné-Bissau/Cabo Verde e São Tomé/Golfo da Guiné, entre outras) trazidos pelos holandeses para o trabalho na lavoura de cana-de-açúcar. Após a retomada de Cabo Verde por Portugal e a reconquista da Nova Holanda pelos patriotas brasileiros, alguns judeus sefarditas, portugueses de Cabo Verde e quase todos os do nordeste brasileiro foram para as antilhas holandesas, levando consigo o português. A linguagem judaico-portuguesa irá se misturar ao Guene dos escravos africanos, dando origem à primeira forma do papiamento, no século XVIII. Com a administração do império colonial holandês nas ilhas, a influência holandesa lega muitas palavras de seu idioma ao papiamento. No final do século XIX a influência do espanhol ocorre com o contato com os países vizinhos, especialmente a Venezuela.

O nome procede da palavra papiá, que significa 'conversar', derivada originalmente da palavra portuguesa papear. Origina-se igualmente deste verbo coloquial o nome do crioulo de base lusófona de Malaca, o papiá kristáng. O verbo papiâ ainda existe no crioulo cabo-verdiano, e significa falar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Barak Obama: entre o sonho e a realidade.

É da minha natureza resistir ao caminho fácil da maioria, quando ela é unânime, aí então é que a porca torce o rabo.

Tem sido assim com o fenômeno Barak Obama. Não tem sido fácil resistir, afinal de contas quem não quer crer num mundo melhor? Quem não gosta de sonhar?

Se não posso negar que a cerimônia de posse foi tocante e cheia de simbologia, confesso que no início da campanha presidencial americana custava a crer na possibilidade de que os EUA viessem a eleger um negro, ou afro-americano como dizem os politicamente corretos.

Imaginei que haveria uma tremenda resistência a candidatura de Obama. Além da barreira racial que ainda existe na América, imaginei que a "novidade" pudesse assustar.

Salvo os mais cosmopolitas (os de New York em especial), os cidadãos americanos médios tem por característica uma boa dose de conservadorismo. Alguém por acaso já esqueceu do escândalo do affair de Bill Clinton e Mônica Lewisnki? O que para nós brasileiros não passou de uma mentira de um marido acuado pelas circunstâncias, nos EUA quase que foi motivo para impeachment.

A eleição de Obama foi uma grande supresa para mim. Imaginava que seu discurso de convergência, tolerante e pacifista pudesse despertar dúvida sobre sua capacidade de "apertar o botão".

É aí que acho que entrou o fiel da balança.

Se até então as atenções estavam voltadas para um sentimento de se proteger contra o inimigo externo, a crise econômica dentro dos lares, afetando diretamente o cotidiano das pesssoas, falou mais alto que qualquer guerra a milhares de milhas de solo americano. Pesou o desastre econômico que foi a era Bush.

Sempre temi situações que dependem do indivíduo em detrimento da capacidade do grupo, seja no núcleo familiar, seja numa empresa, quanto mais numa nação e ainda mais quando é essa a nação que lidera o mundo.

Durante a campanha fiquei com a impressão de que Obama tem uma fantástica capacidade de adaptar seu discurso ao público que o ouve. Com isso, creio, encontrou o caminho que pavimentou sua vitória. É tênue a linha que separa o carisma da demagogia.

Sempre lembrando das dificuldades que surgirão, Obama nunca deixou de lado um certo tom messiânico que a mim assusta um pouco. (Será que tenho medo de ter esperança?)

Se não creio que Obama possa decepcionar por suas ações propriamente ditas, a contrapartida é que parece-me ser uma temeridade alimentar a esperança por dias melhores sem a exata percepção da complexidade dos desafios a serem superados. Existe uma terrível realidade a ser enfrentada.

Que o melhor de Obama nos baste, pois Super-Obama não existe...só nos quadrinhos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Inos Corradin: o melhor de mim.


Eu tinha uns 16 anos quando vi um trabalho de Inos Corradin pela primeira vez.

Foi numa galeria que havia no Shopping Eldorado. Não sei descrever bem em palavras o que senti naquele momento.... as cores...as formas...tudo tão lúdico...complexo em sua ingenuidade.

Nascia naquele momento uma estória de grande admiração artística, que com o tempo se transformaria também em apreço pessoal.

Tempos das vacas magras, uma obra de Inos era (mesmo uma gravura) algo inacessível. Com o tempo passando e a admiração aumentando cada vez mais, chegou enfim o dia em que pela primeira vez pude comprar um trabalho de Inos Corradin.

Na ocasião já me considerava quase que um especialista no assunto, vasculhando aqui e acolá qualquer informação disponível que pudesse haver sobre o autor e sua obra.

Comprei minha primeira gravura para presentear um grande amigo na ocasião de seu casamento. Dei a ele o presente que tanto queria ter para mim. Confesso que deu até uma certa pena...as fraquezas humanas...Tudo bem...meu dia chegaria.

Já era um viciado em equilibristas, músicos, meninas, diurnos e noturnos (temas recorrentes da obra de Inos), quando num certo dia li uma matéria no Jornal da Tarde. Tratava-se de uma reportagem sobre uma série que ele havia pintado retratando jogadores de futebol dos grandes clubes de São Paulo. Era o encontro de duas paixões: Inos e o futebol.

Saopaulino fanático, babei ao ver o quadro do tricolor, indiscutivelmente o mais bonito de todos. Ressalto aqui minha imparcialidade nessa opinião, com a certeza de que não recairá nenhum tipo de dúvida sobre essa afirmação.

Lida a matéria, o próximo passo era tentar comprar o quadro.

Liguei para a galeria apontada na matéria e recebi a informação que o quadro já havia sido vendido. Que frustração...

Dias depois recebi uma ligação. Por um problema qualquer o negócio inicial havia sido desfeito e o quadro estava à venda. Negócio fechado. Eu tinha minha primeira obra de Inos e o mais legal um quadro do tricolor.

Algum tempo depois o canal fechado SPORTV solicitava minha obra para uma matéria que mostrava o esporte como tema de arte. Apesar do ciúme, não tive como negar o pedido e levei "meu" quadro para a galeria que na mesma ocasião fazia uma exposição das obras de Inos. Passei um bom tempo daquela tarde na galeria curtindo a exposição.

Foi a primeira vez que vi pessoalmente um quadro de Inos com São Francisco de tema. Era mais uma coisa em comum, sou admirador de São Francisco, tido como o ser humano que mais se aproximou dos ensinamentos de Jesus Cristo ao longo de sua vida. Inos com seu traço captou como ninguém a pureza de São Francisco de Assis.

Na exposição comentei com o pessoal da galeria minha profunda admiração por Inos e deixei a seguinte mensagem no livro de visitas:

"Presenteei um grande amigo com uma obra de Inos.
Inos foi o melhor que pude dar de mim".

Alguns dias se passaram quando recebi o convite para conhecer Inos pessoalmente. Segundo o relato da marchand, Inos tinha gostado do que eu havia escrito e quando soube que eu era seu "fã número 1", falou sobre a possibilidade de nos conhecermos.

Convite feito, convite aceito.

Que baita frio na barriga, afinal não é todo dia que se conhece um ídolo. Peraí...podia ser uma tremenda roubada. E se o cara fosse um mala? Conhecer um ídolo tem esse risco, reduzi-lo a sua dimensão humana, se expor a sua falibilidade e coisas assim. Já pensou descobrir que seu ídolo é um camarada antipático...metido a besta. Será que o Inos era uma pessoa legal?

Foram necessários uns longos três segundos para perceber o quão Inos, além de genial em sua obra, é fantástico como pessoa. Simpático, bem humorado, com a experiência de quem tem bastante estórias para contar, Inos foi de uma generosidade que jamais irei esquecer, fazendo daquele momento um dos mais especiais de minha vida. Conheci o ídolo, ganhei um amigo.

Costumo dizer que nossa vida é como um álbum de figurinhas onde vamos colando momentos e personagens. Nesse dia tirei duas figurinhas chaves, daquelas que não saem repetidas, difíceis mesmo de se achar.

O tempo passa e ainda acho que Inos é o que há de melhor em mim.

P.S. Conhecer o Inos me trouxe o privilégio também de conhecer a Sandra Carnio, seu anjo da guarda. Visite: www.inoscorradin.com.br

sábado, 3 de janeiro de 2009

Até quando?


Acompanho angustiado o conflito que toma a Faixa de Gaza.

Tenho 41 anos e cresci acompanhando pelo noticiário as várias fases desse conflito que parece (talvez seja mesmo) infindável.

Seria o máximo da pretensão emitir uma opinião fechada sobre uma questão tão complexa que atravessa séculos de História e que se agravou desde a criação do Estado de Israel após a Segunda Grande Guerra.

É ingênua qualquer análise histórica que leve em conta qualquer conceito de justiça seja ele qual for. Especialmente pelo o quanto o que se entende por justiça pode variar pelos tempos e pelas culturas.

É o equlíbrio de forças que determina a relação entre os Estados não existe um único registro histórico que aponte em direção contrária. Vale lembrar a passagem quando Napelão questionado pelo Papa sobre seu expansionismo beligerante, argumenta:

- O Papa tem fuzil? Se não tem...

Assim tem sido pelos tempos...será sempre assim, o famoso quem pode mais chora menos.

Ninguém em sã consciência pode concordar com os bombardeios realizados por Israel, mas acredito que a questão vai além de concordar, antes disso trata-se de entender, de tentar analisar.

Por convicção sempre fujo das análises que me parecem mais retas, óbvias. A vida me ensinou que o óbvio sempre é um caminho perigoso.

Uma frase atribuída a Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestina, culpando o Hamas pelo ataque israelense veio bem de encontro com minha percepção sobre a questão.

Hoje a população palestina ocupa dois territórios a Faixa de Gaza, sob forte influência do Hamas e a Cisjordânia onde a influência maior é da Fatah, dois movimentos (partidos) que dividem a representatividade palestina.

Somente a Faixa de Gaza sofre com os ataques de Israel, na Cisjordânia, relatos apontam para uma situação de normalidade cotidiana.

O movimento palestino hoje é dividido. Enquanto o Fatah admite a existência de Israel, em linha diametralmente oposta o Hamas tem como fundamento principal de suas convicções a utilização de todos os meios necessários para a destruição do Estado Judaico, incluindo-se aí o terrorismo.

Diferente do que possa imaginar o senso comum no mundo Ocidental, foram muitos os avanços registrados na região ao longo dos anos na busca da Paz.

O primeiro acordo visando pacificar a região aconteceu em 1978 entre Israel e Egito, representados por Menachem Begin e Anwar Sadat rendendo a seus signatários o Nobel da Paz.

Um outro passo importante para a paz foi dado em 1994 ao se firmar um acordo enrtre a OLP (Organização para Libertação da Palestina) representada por Yasser Arafat e Israel representado por Yitzhak Rabin e Shimon Perez, Primeiro-Ministro e Ministro para Assuntos Estrangeiros israelenses.

Na ocasião a OLP reconhecia o direito de existência do Estado Judaico que em contrapartida aceita a criação a Autoridade Palestina inciando um processo de transição de poder visando passar para os palestinos o controle sobre as regiões da Cisjordânia e Faixa de Gaza. Um passo premiado novamente com o Nobel da Paz.

São os radicais, de ambos os lados, que sempre atentam contra a estabilidade. Vale lembrar que foi um judeu o repsonsável pelo atentado que tirou a vida de Yitzhak Rabin. O mesmo vale para o momento atual. A violação da trégua, com o lançamento de foguetes contra Israel, abriu caminho para o atual ataque.

É óbvio que se pode argumentar, aliás de forma bem razoável, que a resposta judaica é desproporcional gerando um número inadimissível de vítimas civis, lamentavelmente entre elas muitas crianças. São por perdas assim, inevitáveis em situações como essa, que a guerra deve ser evitada a todo custo. Uma verdadeira liderança deveria ter como principal e inegociável valor a preservação de sua população. Nenhum valor de ordem religiosa, econômica ou qualquer que seja deveria ser anterior a essa premissa.

A existência de Israel é um fato consumado, como da mesma forma a presença milenar do povo palestino na região. Argumentar sobre isso é perda de tempo. É necessário se atentar aos fatos que já são concretos para que se possa evoluir a partir deles. Passa inevitavelmente pela tolerância o caminho para a paz.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

São Silvestre: a pior e a melhor de todas.


Toda corrida é diferente, tem sempre algo novo, o trajeto, o clima, ou até mesmo você. Isso, você também muda. Cada dia você é um, diferente das outras vezes, assim tudo pode variar, desde seu estado de espírito até o quanto de fato você se preparou.

Cada corrida traz uma nova lição e acredito que isso vale até mesmo para o mais experiente dos corredores. Pode até ser que você não se dê conta, mas sempre existe uma lição para se aprender em cada corrida que se faz.

Ontem na São Silvestre foi assim, pelo menos para mim.

Diz a sabedoria popular que só morre afogado quem sabe nadar, quem não sabe no máximo molha as canelas e pelo que me consta nunca ouvi falar de alguém que tenha empacotado nessas condições.

A experiência, via de regra, é algo que deve ser um ponto a favor, uma vantagem em tese...bom...em tese. Por outro lado, a experiência pode se disfarçar numa grande armalhida, basta que você deposite nela, uma pitadinha que seja da sua dedicação. Em outras palavras, confiar na sua experiência para abrir mão da devida dedicação certamente lhe trará um custo.

A minha quarta São Silvestre me trouxe essa lição.

Para mim essa foi a pior e a melhor de todas.

Se cada corrida é diferente da outra (mesmo que seja a mesma), na São Silvestre essa máxima é mais que verdadeira. Já corri São Silvestre na chuva, com sol de rachar, com mormaço, só não corri ainda com frio o que desconfio que nunca irá acontecer.

Ontem fiz o que considero o pior de meus tempos na mesma ordem de grandeza de quando fiz minha primeira São Silva, mas acabei bem estragado, diferente da primeira vez quando cheguei sobrando. Mas se o tempo foi o mesmo o que diabos então teve de diferente?

Tudo!

Desde o quanto de fato me preparei, até minha alimentação no período pré-prova. Na primeira vez, corri com medo de não conseguir completar a prova, me preparei como nunca até e desde então. Cheguei com sobra. Ontem ao contrário, havia me preparado o "suficiente", ledo engano, descoberto dolorosamente a cada passada, principalmente após o décimo quilômetro.

Se na primeira vez a falta de experiência funcionou no sentido de ter que buscar meu melhor, ontem a experiência acumulada fez com que me acomodasse, fazendo surgir uma "continha" a ser paga.

Se por esses aspectos essa foi minha pior São Silvestre, outros a fizeram a melhor delas.

De cara larguei tendo ao meu lado pelos primeiros quilomêtros a companhia do Raul, dono da loja especializada de artigos espotivos, Fast Runner. Por obrigação de ofício e por trajetória atlética sua experiência é notória fazendo de sua companhia um privilégio e tanto.

Era também a primeira São Silvestre da Regiane, minha cunhada, e do Daniel Bunduki (companheiro de trabalho e de corridas) e poder estar lá nesse dia tão importante para eles também foi muito legal.

Desencontramos do Dani, mas isso não impediu de mandar bom fluídos para ele, que segundo minhas informantes de arquibancada (minha mãe e minha sogra) completou a prova muito bem. Moço novo é uma beleza, aliás o Dani vai ser papai então meus parabéns para ele e para a Valquíria, a new mammy do pedaço.

A Regiane fez uma prova brilhante, um relógio, o mesmo ritmo do começo ao fim, chegando super bem, inteirona. Mais uma façanha do Jaspion, o que esse cara consegue...Ela deve ostentar sua medalha de concluinte da prova com o maior e mais justo orgulho do mundo. A cereja do bolo foi estar chegando próximo da linha de chegada e ouvi-la me chamando. Cruzamos a linha de chegada quase juntos, já que como bom cavalheiro e atleta dei a ela essa exclusividade mais que merecida. Aquele era uma momento dela, só dela. Poder testemunhar sua emoção me fez voltar no tempo e sei exatamente o que ela sentiu.

A companhia de minha esposa na prova também é um privilégio e tanto. Mesmo que seja somente até a largada, já que ela é um pé de vento, corre que só ela. Enquanto a maioria dos corredores tem que administrar o humor da companheira quando sai para correr, eu ao contrário tenho uma corredora como companheira e para variar como tantas coisas em nossa relação, sou eu quem faço as vezes da mulher e pego no pé dela. Nossa amiga é um viciada em medalhas, um "Mutley" preso no corpo de uma mulher, o que faz com que ela não perca uma única corrida, tem medalha ela está lá.

De tudo de bom que essa prova me deu, o melhor mesmo foi o quanto eu consegui me superar. Acredito que superei mais um de meus limites. Mesmo tendo já feito provas mais longas e desgastantes, nunca antes precisei tanto usar minha cabeça (para não arregar). Nunca o percurso havia exigido tanto de mim, ainda nem sei bem ao certo como consegui resistir a tentação de dar uma andadinha que fosse, mesmo no meu passinho de elefante, fui chegando...

Se faltou treino (e faltou e muito) acabei descobrindo uma nova fronteira de meu limite mental, que espero não ter que usar na próxima São Silvestre, com treino fica mais fácil e prazeroso.

Descobrir esse limite não me inocenta de minha falta como corredor, essa é a lição que tem que ficar.

P.S. Depois de um puxão de orelha de minha esposa e ainda que tardiamente mais um registro. Assim como nos anos anteriores fomos recebidos pela galera do Bicbanco, que aliás sempre esteve comigo desde o começo. Nesse agradecimento não posso deixar de citar aquele que tenho o privilégio de sua amizade: Eduardo Austregésilo, "mai bródi" Du. Quem tem bom coração tem como o dele não mais.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar..."


Hoje é um dia especial, último dia do ano. Dia de se reunir com a família e os amigos e esperar o começo de um novo ano.

Para minha família o dia de hoje é especial também por um outro motivo: era o aniversário de meu pai.

Fefas nos deixou em 01.10.2000, aos 61 anos.

Poderia ter vivido muito mais, mas escolheu dia-a-dia através de seus (maus) hábitos nos deixar assim tão cedo. A brevidade de sua passagem não se restringe apenas a sua pouca idade (quero viver muito mais que isso), mas sim pelo quanto ele ainda poderia ter nos ensinado.

Foram dolorosos 33 dias de agonia desde sua internação até sua morte. Durante esse período lutamos todos os minutos possíveis para superar aquele momento. Chegou o dia de respeitar a natureza e aceitar a ordem natural das coisas. Os médicos nos comunicaram da falência de seu sistema renal e só nos restava esperar o tempo passar. Dos três dias de prazo, não foram necessários nem dois dias para já não termos mais meu pai entre nós.

Precisei avisar meus filhos que o Vô não iria mais voltar, a sua moda cada um deles me proporcionou um momento inesquecível. O mais velho me abraçou dizendo que não queria que eu morresse também. Ele acabara de descobrir que os pais morrem. O mais novo, para supresa geral com a serenidade de um adulto, lembrou-me que o Vô já havia lutado demais e precisava descansar.

Nunca havia me deparado assim de forma tão crua com a morte. Desde os preparativos para o enterro (que providenciei ainda um dia antes de sua morte de fato), até descobrir que meu pai passara a condição de um corpo, fui submetido a uma imensa onda de dor. Dor da perda, da falta de direção, do medo. Como seria minha vida a partir de então, sem que não mais tivesse aquela referência tão importante em minha vida?

Não sou daqueles que crê que a morte absolve, ou mesmo apaga os erros e defeitos dos que partem. Sofri com meu pai as dores de alguém que tem que conviver com aa doenças do alcoolismo e do tabagismo friamente assinaladas em sua certidão de óbito.

Da mesma forma que sofri, fui amado de forma intensa e carinhosa. Foi com meu pai que aprendi a dizer te amo, a beijar os que amo sem pudor, a não ficar brigado, a sempre buscar o entendimento. Aprendi com ele como se deve tratar uma mulher, que um bouquet de flores é sempre uma boa forma de se demonstrar o amor, que não é necessária uma data especial para se presentear alguém que se quer bem. Aprendi que não se deve ter pudor com nossos sentimentos desde que eles sejam sinceros.

Sua tolerância, sua capacidade de buscar uma abordagem diferente da óbvia, sua resistência ao julgamento fácil, são fontes de inspiração que busco na tentativa de ser uma pessoa melhor.

Foi meu pai, auto-didata, que me ensinou amar a política e a democracia. Que me ensinou que mesmo aqueles que calam fazem política nem que seja por sua omissão.

Foi esse mesmo pai que tanto fiz sofrer quando saía de casa para os congressos estundantis, deixando nele a dúvida se eu voltaria ou não, são e salvo para casa. Por vezes em nossas discussões (ele apenas querendo me proteger) eu lhe disse:

- "Se sua geração arregou, nós não vamos arregar".

Mal sabia eu o quanto aquela geração havia lutado pela democracia que essa geração de hoje nem desconfia quantas vidas custou.

A morte de meu pai me fez perceber uma nova faceta da saudade: a física. Que falta me faz um abraço, uma passada de mão na cabeça, um beijo. Essa é uma saudade que não passa.

Precisei de anos para superar o luto da perda de meu pai, mas hoje passado o tempo percebo que aqueles que fazem diferença não morrem com sua partida física. Ao contrário disso, permanecem vivos através de seus valores que, ainda bem, insistem em povoar nossa memória.